quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sinais



No princípio da semana passada, acordei com umas ligeiras dores de cabeça. Almocei e tomei café e as dores agudizaram-se de tal maneira, que se tornaram insuportáveis e tive de recorrer aos serviços de urgência do Centro de Saúde. A médica, bastante simpática, prescreveu-me uma injecção nas veias, aplicada de imediato na enfermaria do Centro de Saúde. Passada uma hora eu estava praticamente recuperado, ficaram apenas uns leves indícios.

Mas nos dias que se seguiram, senti que alguma coisa tinha mudado. Pelo menos tinha essa sensação, como se as coisas que estavam na minha memória, se tivessem transferido para algures. Perdi a noção do tempo, perdi reflexos, perdi nomes de pessoas, senti tonturas. Simultaneamente, por acaso, comecei a ler “Memorial do Convento” de José Saramago e senti algumas dificuldades na interpretação do texto. Estive tentado a abandonar o livro, sentia-me incapaz de o compreender, cheguei a pensar que estava a atravessar uma nova fase, que já nada seria como dantes, que o melhor mesmo seria escolher um tipo de literatura mais acessível
.
Felizmente as coisas começaram a melhorar. Passei a entender melhor o Baltazar Sete Sóis e os poderes de Blimunda. Passei a arquivar os nomes perdidos, na minha memória. Voltou o equilíbrio, deixei de caminhar com tendência de me inclinar para a esquerda. A leitura passou a ser agradável apesar de não gostar de Saramago como homem.

A memória continua a ter altos e baixos. Uns dias melhor, outros dias teimosa. Mas não me importava de passar o resto dos meus dias, exactamente como estou neste momento. Às vezes demoro a reagir, fico calado a pôr as ideias em ordem. Mas tenho passado uns dias maravilhosos, apesar do sol tardar em chegar.

 Mas decerto não vai ser sempre assim.

Félix Lamartine

terça-feira, 20 de maio de 2014

Estado de Graça



Tenho a sensação de viver em contínuo Carnaval, já que a minha memória não pára de me pregar partidas. Esqueço, com frequência, do nome dos meus amigos, embora alguns deles eu acabe por me lembrar, mas apenas depois de um esforço, o que leva o seu tempo. Às tantas nem são assim tão amigos.

Duas boas notícias. E ambas vindas do Estados Unidos da América. Às vezes penso que são notícias para alimentar a esperança dos doentes de Alzheimer. A primeira é que está em vias de conclusão, um implante com potencialidade para restaurar memórias, destinada a soldados com danos cerebrais contraídos nas guerra dos Iraque e do Afeganistão e que podem ser extensivas àqueles que estão a perder a memória. A outra refere-se a uma proteína que rejuvenesce o cérebro e os músculos, que também está a ser estudada naquele país. Uma espécie de “proteína” da juventude.

Estas notícias têm o condão de alimentar a esperança. Como venho a dizer desde o início não devemos perdê-la, mesmo que surjam dias menos bons. Engraçado como andamos uma vida a tentar esquecer as más recordações e de repente ouvimos dizer que podemos voltar a senti-las apenas através de uma simples proteína. Se ao menos pudéssemos separar as boas das más memórias…

Sinto que não estou pior. Os últimos tempos têm sido de paz. Continuo a esquecer-me dos nomes daqueles que que não devia esquecer, mas algumas das minhas capacidades não diminuíram. As histórias dos livros que leio continuam a fazer sentido, as personagens não se apagam de um dia para o outro. Continuo a sentir a música como há cinco anos atrás. Continuo a amar as pessoas e as coisas com a mesma intensidade de toda uma vida.

Posso dizer que tenho andado a viver em estado de graça.

Félix Lamartine


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Incertezas



Estou melhor ou estou pior?

Não consigo dizer com a certeza absoluta, mas sinto que algumas faculdades cognitivas me estão a abandonar. Muito ligeiramente, que estas coisas são lentas e nós quase não nos apercebemos. É no entanto a memória que mais me tem falhado, os nomes das pessoas que teimam em ficam na penumbra, embora alguns deles apareçam depois de algum esforço. Talvez a evolução da doença está na razão directa da quantidade de nomes que eu me esqueço. Estava a ler o “Declínio do Império Whiting” e decidi voltar ao princípio, depois de ter lido 50 páginas. Não que eu tivesse esquecido o nome dos personagens ou mesmo o fio à história, apenas senti necessidade de conhecê-los melhor, com mais detalhe. Às vezes o café está mais ruidoso e o ambiente não é o mais conveniente para interiorizarmos o que lá está escrito. 

Por vezes fazem-me uma pergunta que está relacionado com a conversa anterior e tenho de fazer uma pausa para me lembrar do que estávamos a falar antes e simultaneamente descodificar o sentido da pergunta. Como faço uma pausa diminuta para me lembrar a que é que se refere a questão, pensam que estou distraído. Há, portanto, uma certa lentidão no processo, que as pessoas que nos rodeiam, às vezes não entendem. E dizem que estamos distraídos, o que não é verdade.

Tremem-me as mãos com alguma frequência, decerto devido ao meu sistema nervoso que anda descontrolado com a depressão. As notícias sobre a situação do país, também não ajudam. A maneira como somos enganados por gente que não tem decência, pioram o estado da nossa saúde. Para nós, que somos o elo mais fraco, é como lutar contra moinhos de vento.

Também sinto leves desequilíbrios, normalmente para a esquerda. Não em termos políticos, claro. Quando caminho, o corpo leva-me a fazer leves desvios, quase imperceptíveis, mas quem vier atrás de mim, deve pensar que venho de algum almoço bem regado.

Sinceramente, acho que o intervalo entre uma consulta e outra é demasiado longo. Um ano é uma eternidade. Este é o balanço de cerca de cinco meses. Neste tipo de doenças, com depressões que às vezes têm desfechos imprevisíveis, os tempos de espera deveriam ser abreviados. Não que o médico possa alterar a evolução da doença, mas é a única pessoa a quem nós podemos expor as nossas dúvidas, os nossos medos, as nossas incertezas. E é a única pessoa que sabe o que devemos fazer e como conversar connosco.

Estou melhor ou estou pior? Vá-se lá saber….

Félix Lamartine

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Arroz de Cabidela



O Manuel Marinho andou na guerra comigo, chegou mesmo a ser o meu guarda-costas durante meia dúzia de meses. Rapaz calado, muito bem educado, sempre humilde e respeitador. Eu também o respeitava, sempre o tratei com estima, por isso ainda hoje somos amigos. Os anos não quebraram a amizade que entre nós existia. Pena que a saúde não o ajudasse a ser completamente feliz, apesar da D. Beatriz ser uma esposa dedicada e dos dois filhos que nasceram desse casamento precoce, serem amigos dos pais, uns modelos de muitas virtudes. O grande problema de Manuel foram as doenças que apareceram, especialmente no último terço de vida. Ora era o fígado, ora era o estômago, vomitava sangue, sempre metido em consultórios médicos ou submetido a várias intervenções cirúrgicas, que lhe iam adiando a morte, mas que não lhe tiravam o sofrimento.

Ultimamente também a memória o tinha afectado, já a voz lhe vinha entaramelando na garganta, as coisas do dia-a-dia as ia esquecendo, a mulher com pouca paciência, o Manuel acabrunhado, remetendo-se ao silêncio, como se fosse culpado dos esquecimentos com que era confrontado diariamente.

O médico de família enviou o processo para o Hospital de S. João, com carácter de urgência Não demorou muito a ser chamado para a consulta de neurologia.

 “Senhor Félix, é um dos melhores médicos do S. João, que ela só queria mesmo o melhor, nem que tivesse de mexer os cordelinhos. Era um bocado sisudo, austero, mas muito competente, segundo me disseram. Senhor Félix, eu já conheço o meu marido há mais de cinquenta anos, sei mais dele, do que ele mesmo. E o médico a implicar comigo e a mandar-me calar, quem deveria responder era o Manuel, mandou-me ir para junto da parede e a ficar lá sem olhar para trás, você nem se passa, e eu a remoer-me toda por dentro e por fora, porque às vezes o Manuel mal sabia responder, a voz ficava enrolada na garganta. E depois eu ia caindo redonda, quando o meu marido concordou com o médico, disse que sim, que já tinha sentido vontade de se suicidar, e eu ali feita lorpa sem saber de nada, que o Manuel nunca me tinha falado nessa história do suicídio, são quase cinquenta anos de casamento senhor Félix e não é que ele me esconde essa vontade, como se o suicídio fosse a solução. E eu ali no consultório ainda perguntei ao Manuel, é verdade que te querias matar? E ele abanou a cabeça, que sim, já sentira essa vontade, oh valha-me Nossa Senhora e o Pai Santo, e logo o médico me mandou calar de novo, senão que me punha lá fora. O Manuel está bem medicado, um comprimido por dia, sempre à mesma hora, nem lhe sei dizer o nome. Sabe senhor Félix, o médico não me quis dizer, mas o meu neto, que por acaso é muito inteligente, descobriu logo que o avô estava com Alzheimer, sabe como é senhor Félix, ele mexe muito no computador, aquilo em meia dúzia de minutos, descobriu logo tudo".

Pedi para me passar o Manuel e disse à D. Beatriz para ter paciência com ele, que agora é que ele vai precisar muito dela. "Não vai ser fácil, eu sei, mas a D. Beatriz vai ser muito importante nesta fase da vossa vida."

“Então Marinho? Então andas a assustar a gente, tu tem calma que estas coisas duram bastante tempo, não é para já que vais morrer, ainda tens muitos anos pela frente, não é o fim do mundo, ainda temos de comer aquele arroz de cabidela que está prometido, não vais agora deixar-me ficar mal e fazer asneiras. Já passaste por tantas, já resististe a uma guerra, que não é uma perda de memória que te vai deitar abaixo".

Ele prometeu-me, solenemente, que por nada deste mundo, perderia o arroz de cabidela.

Félix Lamartine

quarta-feira, 26 de março de 2014

Carnaval




Uma vacina contra a doença de Alzheimer, desenvolvida por uma empresa biotecnológica com sede em Saragoça (Espanha), começou a ser testada em seres humanos em Janeiro último, ensaios clínicos que envolvem 24 pacientes. O foco desta etapa, que irá durar cerca de um ano e meio, será analisar a toxidade da vacina e não a sua eficácia, explicou o Director científico, que se escusou a estabelecer uma data concreta para a conclusão da vacina,” (in Diário de Notícias de 26 d e Fevereiro de 2014).

Esta é mais uma notícia, igual a tantas outras, que têm dado esperança aos portadores da doença de Alzheimer, que lhes cria a esperança de um dia poderem vir a ser curados, mas trata-se apenas de estudos, como tem acontecido já por várias vezes. Mas é uma esperança. E a esperança é ainda muito maior, quando nós sabemos que podem ser os nossos filhos a beneficiar destes estudos, que o legado que nós lhe deixamos, por via da hereditariedade, possa vir a ser tratado, ou até mesmo evitado.

Também foi publicado na imprensa nacional a notícia que, através de um vulgar análise sanguínea, poderá detectar-se a existência da Doença de Alzheimer. Os estudos são também preliminares, mas mesmo que essa detecção seja possível a curto prazo, os cientistas acham que não será justo colocar esse exame no mercado, sem que primeiro se descubra a cura da doença.

Tenho andado um pouco taciturno, algo desmotivado, meio deprimido. As razões não são claras, é daquelas coisas que a gente não sabe explicar. Cá em casa repararam, como não podia deixar de ser. E o que aconteceu?

A família e uns amigos resolveram convidar-me para uma festa de Carnaval, para me fazer reagir, embora eu não goste nada de carnavais. Toda a vida senti alguma aversão pelas folias carnavalescas. Confesso que não me divirto muito com aquela folia e muito menos aprecio disfarçar-me ou colocar uma máscara que preserve o meu anonimato, embora me tenha mascarado uma única vez. De palhaço pobre, já lá vão mais de trinta anos.

Juntámo-nos todos, na quinta de uns amigos e na companhia de alguns familiares e amigos. Acabei por aceitar, que eu não gosto de ser desmancha-prazeres nem devo “castigar” a família por causa de um momento menos bom. Jantei bem, bebi melhor, conversei bastante, mas continuo a dizer que o Carnaval é uma festa de loucos e não de gente deprimida. Mas gostei da diversão, vista do lado de fora. E tinha uma vaca, uma libélula, um palhaço, uma corsária de pernas ao léu, e até lhe disse “você merecia ganhar”, mas não ganhou, o vencedor foi o par composto pelo Quim Roscas e o Manel, estiveram impagáveis a noite toda, o Quim Roscas era a cara chapada do original, o homem estava tal e qual, uma verdadeira surpresa.


 Cheguei a casa por volta das quatro da manhã, mas só adormeci já passava das seis. Havia demasiado merengue dentro da minha cabeça. Mas foi uma boa escolha.
 
Félix Lamartine